Algumas reflexões das semanas de reclusão 

 

Ouvindo e lendo notícias de especialistas de várias áreas, mesmo que no Brasil nossos primeiros cuidados estão ainda em andamento, já dá para aprender algumas lições.

Para mim, (e é para todos) a primeira coisa, e que estou mantendo sempre presente é a seguinte: a vida, como antes a vivíamos, não existirá mais!

Isso porque, por mais que saibamos que a mudança é a única coisa permanente, ainda ouço e leio nas redes “ah, não vejo a hora que tudo isso acabe” e “quero voltar logo para a minha vida normal” e outras do mesmo naipe. O primeiro aprendizado que temos que nos tornar conscientes: a vida normal (!?!) como a conhecíamos, acabou. Se isso é bom ou ruim já é outra história…

Outras reflexões e afirmações podem ser incorporadas ao nosso cotidiano  as relações entre pais e filhos, após esse período juntos, se alteraram. Os papéis familiares estão sendo redefinidos. Pais e mães reaprendendo a estudar e brincar com as crianças, a desenvolver paciência, novas atividades, e em conjunto, estabelecem limites. Espera-se maior autonomia e responsabilidade entre as crianças, mas também, surgem casos, ou de hiperatividade ou de depressão. Tudo depende, muito mais agora, do equilíbrio e da saúde emocional dos pais

Bem, como em tantos outros aspectos, nossas unidades familiares são bem heterogêneas, daí vão ocorrer situações de um ao outro extremo.

Claro que estas considerações que estou apresentando são ainda superficiais, muito amplas e sempre têm o outro lado, necessário discutir em esferas mais específicas. Peço generosidade e boa vontade na sua leitura. Só quero apontar algumas constatações, as que mais se destacaram na mídia nestas três semanas de acompanhamento e pesquisas.

O papel da mídia foi resgatado e valorizado. Estamos sem tempo para notícias falsas, precisamos de informações confiáveis de profissionais sérios e competentes. À imprensa cabe ocupar seu lugar nobre, com ética, responsabilidade, coisas assim… simples e fundamentais!

Outra constatação: reuniões em bares, festas e churrascos, práticas tão comuns a nós brasileiros, deverão tomar outro rumo e escala. Mesmo porque motivos para comemorações, por maior otimismo que queiramos viver, o momento é de consternaçãode perdas, em todos os sentidos.  Entretanto, a ansiedade e o medo levam as pessoas a quererem se aproximar e estarem juntas.

O trabalho remoto, tão discutido, foi adotado em larga escala e deu para perceber que nem é um bicho com tantas cabeças assim. A tecnologia foi logo assimilada em tarefas antes impensáveis e por pessoas que estão se adaptando, até que bem rapidinho. Isto vai mudar completamente a relação trabalhador/empregador com derivadas ainda desconhecidas e a serem exploradas.

Neste mesmo bloco incluo a EAD – Educação a Distância – que está sendo utilizada nas escolas particulares, como nas públicas, assegurando, com esforço gigantesco de professores, a continuidade da aprendizagem. Claro, que se formos pesquisar, sem precisar ir muito fundo, encontraremos grandes disparidades por conta dos desníveis da nossa sociedade, e pela desigualdade dos municípios brasileiros. Só estou salientando a gradual e veloz adequação que está ocorrendo quanto ao uso da ferramenta tecnológica

Outro dia, li num grupo de Educação Fundamental aqui do Eniac que uma mãe comprou um notebook para sua filha, equipamento até então inexistente na casa.  Pensei, pôxa! que compreensão dessa mãe e que valorização e reconhecimento da ferramenta!  Em meio à situação caótica, ela se ocupou em não retardar o processo de aprendizagem da filha. Vai saber que dificuldades teve que superar…

Outro tema muito importante a ser mencionado é quanto ao valor das Ciências Humanas. De forma geral, as Ciências, em especial no nosso país, estão cada vez com menos verbas e sua credibilidade em xeque. Finalmente, o biólogo Atila Iamarino – alçado à figura nacional pela sua participação em programa na TV aberta –  assinalou que sem a integração do conhecimento das diferentes áreas científicas será impossível vencer esta crise. Uma mudança a ser incorporada ao ‘novo mundo’.  Viva! Viva! (parece a descoberta da roda, né? mas, ainda que notória, melhor que reafirmou ao grande público). Como avaliar a situação sem o conhecimento da demografia, da geografia, biologia, história, antropologia? e das distintas áreas da saúde? Impossível enumerar todas as contribuições de cada uma das áreas científicas.

No nível individual, ainda vemos resistências. Li em uma rede social que “uma pessoa egoísta, ainda é egoísta, e uma colaborativa continua colaborando”. Sim, pode ser verdade, cada pessoa tem um ritmo, e é composta por partes que se alinham às narrativas da crise, em movimentos variados. Vamos dar um tempo e a necessária aceitação à cadência de cada um.

Sabemos que ao final estaremos todos juntos. A busca de  equilíbrio, neste cenário aterrador, é um dos maiores desafios que a humanidade já enfrentou. A evolução da civilização e da consciência humana, desde o início da escrita, até chegar ao momento atual dos computadores e da internet foi de uma rapidez ímpar.

E agora, como evoluiremos enquanto espécie?

 Que tal um voto de confiança no ser humano, onde cada um de nós

é parte e representa o todo?

 

Capa: Agência de Comunicação Eniac Premium

Por: Miriam Barcellos

Publicado em: 7 de abril de 2020

Categorias: Educação, Notícias
Tags: .