“Quando não temos palavras para nos exprimir, tornamo-nos violentos”                                                                                 

                                                                               Sophie Marinopoulos, psicanalista francesa.

Imagine a seguinte cena: você numa sala com algumas crianças, na faixa de 3 anos, oferecendo papéis e lápis coloridos e perguntando: “vocês querem desenhar ou querem ver um filme na TV?”

A maior parte delas, com certeza, vai responder que prefere ver um filme. E essa resposta parece ser a constante em vários lugares do mundo.

A psicanalista francesa Sophie Marinopoulos, especialista em primeira infância, descreve o processo de “desnutrição cultural” entre os pequenos: “uma ameaça à vitalidade de nossa capacidade de se relacionar e de estabelecer pontes com os outros, um processo essencial no desenvolvimento dos bebês e crianças“. 

“Tecnologias de isolamento”

Nossa identidade é criada a partir das relações que estabelecemos com as pessoas a nossa volta. Os outros são como espelhos que permitem definir quem eu sou. 

A linguagem e o vocabulário, que vai se ampliando nas crianças com o passar dos anos, estão relacionados, diretamente, com o grau de interação que firmamos no ambiente que nos rodeia. 

A psicanalista assume, integralmente, a ponte que estabelece entre saúde e cultura. “Nós, humanos, começamos nossa história de vida sempre em relação ao outro. É o que nos caracteriza. Tudo o que é linguagem, o que é simbólico e afetivo, vem daí e é primordial” analisa.

“Na vida em geral, quando não encontramos palavras para dizer o que precisamos dizer, é ali que nos tornamos violentos. O que os linguistas ensinam, e os psicanalistas concordam, é que quanto mais palavras e vocabulários dispomos para nos expressar, menos vontade temos de sermos violentos em relação a alguém”, conta Marinopoulos. “É por isso que é essencial acompanhar nossas crianças na qualidade da linguagem. Que eles saibam exprimir suas emoções, ao invés de ir bater nos colegas na escola”, diz. 

A psicanalista lembra que o vocabulário das crianças pequenas se encontra hoje cada vez mais empobrecido dentro da estrutura da linguagem.

“A desnutrição cultural é um conjunto de comportamentos que bloqueiam a qualidade da relação entre pais e filhos, prejudicando diretamente os vínculos sociais dessa criança”, diz Sophie. 

Ela evoca a expressão “culturas bloqueadoras” para se referir ao problema: “As crianças não têm mais tempo de interpretar o mundo em que vivem. É preciso lembrar que a saúde dos humanos é antes de tudo cultural, isto quer dizer, tudo o que diz respeito a nossas relações, à nossa capacidade de conviver e compartilhar com outras pessoas, de nos conhecermos e compreender nossas diferenças”.

“O problema não é concentrado nos pais ou nas crianças, mas diz respeito a toda sociedade contemporânea. Queremos filhos, mas sem infância: eles não devem fazer barulho, gritar, nem se mexer muito”… Para Marinopoulos, a modernidade exige um desempenho e uma eficiência imediatos. O problema, segundo ela, é que o aprendizado infantil vai na contramão dessa “performance otimizada” desejada pelos adultos. “Para aprender, uma criança deve fazer experimentos repetidos e, obviamente, passar por repetidos fracassos”.  

Algumas “medidas” necessárias

“O problema não são os tablets e smartphones, mas como são usados”.

O desejável, aconselhado por psicólogos e pediatras, é estimular a criatividade das crianças com livros, leituras e contação de histórias, antes de introduzi-las às telas, cujas luzes azuis podem causar sérios problemas oftalmológicos, principalmente, nas crianças. É bom salientar que as telas têm um efeito passivo, ao passo que o brincar desencadeia um processo ativo na imaginação dos pequenos.

Especialistas no Brasil, e de outros países também, afirmam que até os dois anos de idade o ideal é a criança não ter nenhum contato com telas. A partir dessa idade, 30 minutos por semana é o aconselhável, aumentando progressivamente, até uma hora por dia entre os 6 ou 7 anos de idade. 

Esses são limites ideais, servindo mais como uma referência. Obviamente, todos conhecemos as dificuldades dos pais ao chegar em casa, cansados do dia de trabalho, da irritação no trânsito…e aí, onde encontrar energia para se relacionar com os filhos, ávidos para brincar e compartilhar seu dia na escola?? Muito mais fácil deixá-los com a super babá, quase perfeita: um tablet ou smartphone!

Que tal, hoje, começar a ter outra atitude?

Entra aqui a tradicional diferença entre qualidade de atenção x quantidade de tempo.

Vale a pena experimentar: parar tudo o que se está fazendo, e ficar por um tempo determinado, totalmente entregue a uma atividade que a criança gosta ou solicita, um jogo, uma brincadeira, leitura de um livro, uma conversa …  Esse tempo pode ser de 20, 30 minutos, mais ou menos. Você verá que a criança, em seguida, encontrará algo que, sozinha, ficará entretida. Ou, então, estabeleça um pacto com ela. Um acordo, uma troca em que ambas as partes precisam respeitar. É claro que a idade dos filhos vai requerer dos pais imaginação e adaptabilidade à qualidade da interação e do respeito necessário.

Se você, que está lendo este texto, tem filhos(as) ou crianças pequenas na sua família pode contribuir muito com o desenvolvimento integral dos pequenos promovendo uma interação que favoreça o brincar e a livre expressão da imaginação e criatividade deles. A simplicidade e autenticidade têm aí papel fundamental. 

Li o relato de uma faxineira que se ocupava, após jantar e banho das crianças, a compartilhar com elas seu dia de trabalho, as conversas que entabulava nas casas dos clientes ou as que ocorriam na condução do dia a dia. Ela disse que lê muito mal, mas sabe contar “causos” muito bem, como se fosse um teatro! É incrível esse exemplo. O compromisso maior em “estar” com os filhos, em criar momentos agradáveis, supera os limites que ela possui. Esse gesto simples amplia enormemente o vocabulário e a imaginação, enfim, propicia que o universo infantil torne-se mais rico!!

 

Capa e Imagens: Agência de Comunicação Eniac Premium

 

Por: Miriam Barcellos

Publicado em: 15 de outubro de 2019

Categorias: Colégio, Educação, Educação Infantil, Ensino Médio, Psicologia, Saúde
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